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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Bailarina e coreógrafa Marta Soares apresenta retrospectiva de espetáculos de dança nos 20 anos de carreira

Cena de Vestígios – Foto: João Caldas

“Eu trabalho nas minhas criações, entre outras coisas, os traumas de ter crescido em uma pequena cidade do Interior de São Paulo, durante a ditadura militar, numa sociedade patriarcal. Acredito ser esse um dos motivos pelo qual venho criando danças sobre a impossibilidade de dançar.” Nesta sentença, a premiada coreógrafa e bailarina Marta Soares resume um dos diversos temas subjetivos que guiam as suas obras. Quatro prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) na área da dança, a artista – que tem especializações no Exterior e estudou com o mestre do butô Kazuo Ohno – apresenta quatro espetáculos, a partir de março, na Oficina Cultural Oswald de Andrade.


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Vestígios (de 3 a 19/3, de quinta à sábado, às 20h), O Banho (de 31/3 a 16/4, de quinta à sábado, às 20h), Deslocamentos (de 5 a 28/5, de quinta à sábado, às 20h) e Les Poupées (de 9 a 25/6, de quinta à sábado, às 20h) foram as instalações coreográficas escolhidas para a Ocupação Marta Soares. Dos quatro, apenas em Deslocamentos Marta não dança – são seis bailarinas em cena. Segundo ela, a sequência tem uma lógica: “A ordem das apresentações reconstrói um corpo que volta a dançar. Com o tempo, meu trabalho foi ficando mais plástico, instalativo e performático, hoje é um híbrido entre dança, artes visuais (instalação e vídeo) e performance”, explica a artista, mestre em Comunicação e Semiótica.

Em Vestígios (2010), Marta está completamente imóvel sob a areia; O Banho (2004) delimita o corpo da artista em uma banheira. Em Deslocamentos (2014-2015), Marta é coreógrafa, não participando da cena. Já um de seus primeiros trabalhos, Les Poupées (1996), é a obra onde há mais movimento, em que ela mais dança. A influência do fotógrafo e escultor alemão Hans Bellmer na arte de Marta dava seus primeiros sinais nesse espetáculo e depois permeou toda a sua obra.


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Marta escolheu a dança (aos 20 anos, “velha”), como uma possibilidade de vida, um meio de expressão de seus sentimentos. “Nesta mostra é como se eu estivesse reconstruindo meu corpo de volta à dança, que tem sido um lugar onde eu restrinjo o meu corpo. No Les Poupées estou restrita pelo figurino; n’O Banho, pela banheira; em Vestígios, pela areia; em Deslocamentos, eu restrinjo as interpretes em roupas. Meu trabalho reflete, através da impossibilidade de dançar, entre outras coisas, a condição social e política na qual cresci e os traumas dessa vivencia”, complementa Marta, que é reconhecida publicamente por ter um trabalho híbrido e interdisciplinar que perpassa a dança, artes visuais, performance e instalações em vídeo.

Os quesitos que Marta destaca como divergentes entre o seu trabalho e o que tem sido feito pelas gerações seguintes são o temporal e o histórico, pois suas pesquisas – que levam anos a serem desenvolvidas – refletem questões subjetivas como os traumas de ter crescido durante a ditadura militar, numa sociedade patriarcal. “Talvez um dia eu ‘desentale’ o meu corpo, mas por enquanto as minhas criações tem sido assim”.

A TRAJETÓRIA DE MARTA SOARES NA DANÇA

Marta se mudou para São Paulo em 1980 a fim de prestar vestibular para arquitetura, mas o “chamado da dança”, como diz a própria artista ao se lembrar de um filme que assistira sobre a vida da bailarina Isadora Duncan e da influência de uma prima que estudava na Escola Municipal de Bailado de São Paulo, a fizeram se inscrever em aulas de dança expressiva.

“Em uma das primeiras aulas, ao rolar no chão, pude perceber que aquele tipo de dança poderia ser um meio de vida do qual eu teria possibilidades de acessar sentimentos e sensações que até então não me haviam sido permitidos”, conta Marta. Em São Paulo, a artista estudou os princípios de análise de movimento Laban com Maria Duschennes e a abordagem somática da dança com Klauss Vianna (nas escolas de Rutch Rachou e Renée Gumiel) e Ivaldo Bertazzo.

Em seguida, Marta foi morar em Londres após ser aprovada num curso com duração de um ano no Laban Centre for Movement and Dance. De Londres, foi para Nova York, onde frequentou as aulas de dança no Alwin Nickolais Dance Lab. Na cidade americana, Marta também estudou no Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies (LIMS), conquistou uma bolsa para participar do Certified Movement Analyst Program (CMA), e concluiu o Bacharelado em Artes (com concentração em dança) no Empire State College na State University of New York (SUNY), além de outras atividades. Alguns workshops que realizou no país sobre dança butô a levaram a Tóquio, onde teve aulas no estúdio de Kazuo Ohno.

De volta a São Paulo, matriculou-se no mestrado de Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP) tendo como orientadora a professora Christine Greiner, especialista em dança butô e cultura japonesa. Neste período, também frequentou o Centro de Estudos do Corpo, coordenado pela professora doutora Helena Tânia Katz. Durante os quatro anos do mestrado, Marta criou as obras Les Poupées, Formless, O Homem de Jasmim, Estar Sendo, O Banho e 206. Em seguida matriculou-se no doutorado em Psicologia Clinica no Núcleo de Subjetividade, também na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), tendo como orientadora a professora Suely Rolnik. Durante os seis anos do doutorado desenvolveu as obras Um Corpo que Não Aguenta Mais e Vestígios. Recentemente vem desenvolvendo o projeto Deslocamentos, que teve três versões site specifics. Com esses trabalhos a artista faturou quatro prêmios da APCA.


SOBRE AS OBRAS

Vestígios

A partir de pesquisa em cemitérios indígenas pré-históricos na região de Laguna, em Santa Catarina, a obra propõe uma experiência de escavação arqueológica, interceptando as linguagens da dança, artes visuais (vídeo e instalação) e performance. Para a pesquisa, a bailarina e coreógrafa fez imersões físicas nesses locais.

Vestígios propõe ao público uma viagem ficcional entre o não lugar, espaço da instalação, e o lugar, o espaço de fora, onde se encontram os sambaquis pesquisados. “Concebi uma performance sintética, a partir sensações captadas naquele ambiente e fiz um recorte, propondo, portanto, ao público uma viagem ficcional para aquele lugar”, conclui Marta, citando outra referência do espetáculo, Robert Smithson, um dos criadores da land art.

Prêmio APCA 2010 na categoria Pesquisa em Dança e indicação ao Prêmio Bravo! 2010.

O Banho

Solo realizado em uma banheira com água, onde Marta Soares executa sequência de movimentos, inspirados pelas fotografias de mulheres histéricas, sob autoria do médico e cientista Jean-Martin Charcot, no início do século passado.

A instalação coreográfica O Banho resulta de pesquisa realizada sobre a vida de Sebastiana de Mello Freire, Dona Yayá, mulher da elite paulistana que, ao ser diagnosticada doente mental, teve sua casa na Bela Vista, São Paulo (hoje tombada pelo patrimônio histórico) parcialmente transformada em um hospital psiquiátrico privado e nela permaneceu isolada por ordens médicas por 42 anos (entre 1919 e 1961).

Trata-se de instalação coreográfica, constituída por projeções de vídeos em formato de tríptico (três imagens lado a lado). Com 50 minutos de duração e instalação sonora de Lívio Tragtenberg, a obra foi concebida em loopings, com esses elementos transpostos para a iluminação e a sonorização e a sequência de movimentos executados por Marta. Os vídeos são imagens captadas por Marta, especialmente dos reflexos do seu corpo projetados no espaço, a partir do solário de vidro existente na casa da Dona Yayá.

Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA 2004)

Deslocamentos

Deslocamentos são partituras coreográficas constituídas por várias combinações de corpos acoplados por figurinos (duetos, quarteto e sexteto) que, ao se movimentarem, geram figuras híbridas, sem classificação pré-estabelecida e que podem, ao mesmo tempo, vir a ser homem e mulher, vivo e morto, dentro e fora, figura e fundo, ou seja, corpos informes (sem forma), em trânsitos entre deformações – sucessão de movimentos – e transformações – sucessão de formas.

Corpos que podem ser uma reflexão sobre como o poder os afeta na contemporaneidade, por exemplo, através da biopolítica, e quais seriam as possíveis maneiras dos mesmos exprimirem uma potência própria, resistindo às formas vindas de fora e que se impõem ao dentro, para lhes imprimir uma “alma”. Para isso, como personagens de Samuel Beckett, as bailarinas experimentam situações nas quais não é mais possível agir, responder à forma ou ficar em pé, mas somente ceder progressivamente a todos os tipos de deformações. Ações que, em uma primeira instância, podem parecer de resignação, mas que por intermédio de um olhar mais apurado é possível observar serem atos de resistência a qualquer tipo de formatação, classificação e interpretação desses corpos.

Les Poupées

O ponto de partida de Les Poupées é o trabalho fotográfico surrealista do alemão Hans Bellmer, que pesquisa o que chamou de “inconsciente físico” ao fotografar as suas bonecas, as quais montava, desmontava e remontava. Bellmer foi influenciado pelos contos de E.T.A. Hoffman, em especial O Homem de Areia, pelos movimentos dadaísta e surrealista e pelos experimentos psicanalíticos realizados no início do século 20, por Charcot e Freud com pacientes histéricas.

O inconsciente físico seria o caminho que os desejos inconscientes percorrem pelo corpo. Bellmer procurava incessantemente, em suas fotografias, expor os mecanismos dos desejos humanos e revelar a relação entre o dentro e o fora do mesmo.

O espetáculo explora categorias – a indistinção entre o dentro e o fora, o morto e o vivo, o homem e a mulher, a figura e o fundo (conceitos do escritor George Bataille). O solo Les Poupées explora questões como a fragmentação do corpo, a dissolução dos limites entre o corpo e o seu entorno, como também o borramento das fronteiras entre as categorias masculina e feminina, para refletir sobre a condição de multiplicidade do sujeito na contemporaneidade.

Prêmio APCA 1997 na categoria Melhor Pesquisa em Dança.

SOBRE MARTA SOARES

Marta Soares é dançarina e coreógrafa. Completou o One Year Course no Laban Centre for Movement and Dance em Londres. Em Nova Iorque completou o bacharelado em artes (BA) no Empire State College na State University of New York (SUNY), o Certificado em Análise de Movimento Laban (CMA) no Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies (LIMS), estudou e trabalhou com a diretora e dramaturga Lee Nagrin (fundadora do grupo “The House” dirigido por Meredith Monk e ganhadora do Prêmio OBIE em dramaturgia) e nas escolas Movement Research , Susan Klein , Alwin Nickolais, entre outras. Apresentou seus trabalhos em show cases em vários teatros downtown de Nova Iorque, entre os quais destacam-se: PS 122, DIA Arts Foundation e The Knitting Factory. Recebeu a Bolsa para artistas da Fundação Japão através da qual estudou dança butô com Kazuo Ohno em Tóquio.

No Brasil, criou o solo “Les Poupées” (Prêmio APCA 1997 na categoria Pesquisa em Dança) com o apoio da Bolsa Rede Stagium; o trabalho em grupo “Formless” (Prêmio APCA 1998 na categoria trilha sonora desenvolvida por Lívio Tragtenberg), com o apoio do Prêmio Estímulo Flávio Rangel de Artes Cênicas do Ministério da Cultura e Funarte; o solo “O Homem de Jasmim” (Prêmio APCA 2000 nas categorias concepção/direção e vídeo/cenografia) com o apoio da Bolsa Vitae de Artes e do Prêmio Estímulo de Dança – Novas Linguagens Coreográficas da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, apresentado na Mostra Rumos Dança 2000/2001, no Itaú Cultural.

Colaborou com a bailarina Miriam Druwe como orientadora na criação do solo “Estar Sendo” apresentado na mostra Livre Transito, no evento Dança em Pauta, no Centro Cultural Banco do Brasil. Recebeu a Bolsa para Pesquisa e Criação Artística da John Simon Guggenheim Foundation, através da qual criou o solo “O Banho” (Prêmio APCA 2004 na categoria instalação coreográfica), o qual teve a sua estréia na Galeria Vermelho, na Mostra Rumos/Dança 2003/2004, do Itaú Cultural. Dirigiu o solo “206” interpretado pela bailarina Lilia Shaw para o evento Solos em Questão, da Cia. 2 do Ballet da Cidade de São Paulo (Prêmio APCA 2004), na categoria instalação coreográfica.

Desenvolveu o espetáculo em grupo “Um corpo que não agüenta mais” com o apoio do I e IV Programa Municipal de Fomento a Dança da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo e Prefeitura da Cidade de São Paulo, o qual teve a sua estréia na Mostra SESC de Artes Circulações em 2007 e uma segunda temporada no Espaço Viga em 2008. Recebeu o VI Programa Municipal de Fomento a Dança da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo e o Prêmio Rumos Dança do Itaú Cultural 2009/ 2010, para desenvolver a instalação coreográfica “Vestígios” indicada ao Prêmio da BRAVO! 2010 e ganhadora do Prêmio APCA 2010, na categoria Pesquisa em Dança. Recentemente realizou o projeto Deslocamentos, contemplado com a 14ª Edição do Programa de Fomento à Dança de São Paulo, o qual teve a sua estréia em fevereiro de 2014 na Casa Modernista – projetada em 1927, pelo arquiteto russo Gregori Warchavchik (1896-1972) – em um formato site specific utilizando vários espaços internos e externos da mesma.

Os seus trabalhos foram apresentados em vários festivais nacionais e internacionais entre os quais destacam-se: Fórum Internacional de Dança em Belo Horizonte (FID), Festival Panorama Rio Arte de Dança, Festival Porto Alegre Em Cena, Festival Internacional de Dança de Recife, Bienal Internacional de Dança do Ceará e Festival de Dança de Joinville. Festival Temps d’Images no CentQuatre em Paris, França, Festival Queer Zagreb em Zagreb, Croácia, Festival Europália no The Single na Antuerpia, Bélgica e Festival In Transit na Haus der Culturen der Welt em Berlim, Alemanha.

É mestre em Comunicação e Semiótica e doutora em Psicologia Clínica/Artes (Núcleo de Subjetividade) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, onde também lecionou na Faculdade das Artes do Corpo no período entre 1999 e 2012.

SERVIÇO

Ocupação Marta Soares
De 03 de março a 20 junho de 2016
Local: Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios, 363 – Bom Retiro – São Paulo/SP

Programação:

Vestígios.
De 3 a 19 de março.
Quintas, sextas, e sábados, às 20h
Ingressos: Grátis. Retirar ingressos 30 minutos antes.
Classificação: Livre.
Duração: 60 minutos.
Capacidade: 40 lugares.

O Banho.
De 31 de março a 16 de abril.
Quintas, sextas, e sábados, às 20h
Ingressos: Grátis. Retirar ingressos 30 minutos antes.
Classificação: 12 anos.
Duração: 60 minutos.
Capacidade: 40 lugares.

Deslocamentos.
De 5 a 28 de maio.
Sextas e sábados, às 20h (haverá uma sessão extra dia 5 de maio, quinta-feira, às 20h)
Ingressos: Grátis. Retirar ingressos 30 minutos antes.
Classificação: Livre.
Duração: 90 minutos.
Capacidade: 40 lugares.

Les Poupées.
De 9 a 25 de junho.
Quintas, sextas, e sábados, às 20h
Ingressos: Grátis. Retirar ingressos 30 minutos antes.
Classificação: Livre.
Duração: 45 minutos.
Capacidade: 40 lugares.

Oficina de Compartilhamento de Processo Criativo – Marta Soares e Cia.
De 6 a 20 de junho.
Segundas e quartas-feiras, das 14h à 18h.
Público: Artistas da dança, teatro e estudantes das artes do corpo.
Inscrições: De 1º de abril a 30 de maio, pelo site da Oficina Cultural Oswald de Andrade.
Seleção: Análise de currículo e carta de interesse.
Vagas: 20.
Indicação: Maiores de 16 anos.



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Sobre o Autor:

Roger Dance é dançarino, coreógrafo e blogueiro. Estudioso dessa arte pretende dividir seu conhecimento, pesquisas e informações com todos os amantes da Dança. Saiba mais sobre o Autor. Siga no Twitter: @mundo_danca

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